Especial São Gabriel da Cachoeira: Casa das Freiras

A Casa das Freiras, em São Gabriel, é um complexo com “chalés”, cada um com uma finalidade. São cinco atividades-núcleo:

1. Projeto Maniaka (farinha)

2. Projeto Semente

3. Projeto Tucum

4. Projeto Kunhatã kura suri (meninas) = inclusive inclusão digital

5. Projeto Abrigo = 17 meninas e 2 bebês

Conheci três deles:

1) Venda de artesanato. Olha esse caso! Fui logo vendo algumas peças expostas. A irmã acabava de atender um casal, eu fiquei olhando. Separei algumas coisas e antes mesmo que eu me decidisse por elas a irmã foi logo fazendo as contas e me mandando embora.

“Escolhe logo que nem era para eu estar aqui. Tenho que voltar lá pra cima”

Escolhi rapidinho algumas peças e fui logo saindo. Deu R$16,50. Eu passei uma nota de R$20. Ela: “Ah! Escolhe logo uma outra coisa aí de R$3,50 que eu não tenho troco”.

Falou na maior ênfase, quase em fúria. hahaha Saímos e ela foi logo fechando a porta.

2) Lugar das crianças

Se estudam à tarde, vão para a Casa das Freiras pela manhã. Se estudam à noite, vão de tarde. Fazem tarefa e depois bordam. Aprenderam a bordar lá mesmo. Entrei e elas estavam super tímidas fazendo tarefa. Fiquei um tempo esperando a chuva passar. Tirei umas fotos. Eram tão lindas, tão carinhas de índio. Por sorte tinha um gatinho que me ajudou a fotografar. Ele era o motivo das fotos. Quando eu já estava indo embora consegui muitas fotos do lado de fora. Elas se juntaram todas para serem fotografadas, adoraram. Se reuniam carregando o gato. Foi emocionante.

3) Oficina de Tucum. A sala estava vazia. Tinha uma mesa central com 6 cadeiras, 5 teares com corda de tucum sendo trabalhada, uma máquina de costura e ninguém. Sim, estava vazia e assim ficou por quase meia hora. Eu aproveitei meu tempo sentada na mesa escrevendo. Chovia muito. Revi as fotos e pensei que tinha sido muito precioso estar naquele lugar e sentir a alegria misturada com timidez daquelas crianças.

No dia seguinte voltei até lá ansiosa para saber mais histórias e tirar eu mesma uma foto com as crianças (que está nesse post). Fiquei sabendo que o nome da irmã que me apressou para comprar logo é Irmã Elizabeth. Tem 80 anos. Veio da Alemanha há 51 anos. E hoje é super ativa e as crianças adoram fazer bordado com ela.

Quem me recebeu e contou tantas histórias foi a irmã Giustina Zanato. Disse que a juíza da cidade já bateu o martelo “Sem essa casa São Gabriel não conseguiria ter algo na área de abrigos”. Ultimamente o Estado tem mandado uma verba. Também a Itália manda uma verba diretamente para os obreiros – prefere isso a colocar dinheiro na mão de políticos.

Há 26 anos irmã Giustina está no Brasil, tem 61 anos. Irmã Giustina é italiana, tem 61 anos, jeitinho delicado e carinhoso. Enquanto eu fotografava os artigos que estavam à venda no lugar, ela sentou-se à mesa e ficou etiquetando calmamente os novos produtos que iam ser postos à venda. Contei o caso da Irmã Elizabeth, ela riu e foi logo me dizendo que a irmã Elizabeth era daquele jeito mesmo e que se tinha alguém com quem as crianças gostavam de fazer bordado era com ela. Com81 anos dava conta de muitas atividades na Casa, era um encanto. Quando chega em São Gabriel o pessoal da Trip, companhia aérea, já diz “Chegou a prefeita” e ela sorri ao contar. Nos últimos dias estava acontecendo blitz na cidade e a irmã Elizabeth foi logo se informando se a blitz havia terminado. “Quero sair de carro mas sei lá quando foi que venceu minha carteira”.

“Irmã fora da lei”, brinquei com a Giustina, e ela disse rindo “é, totalmente fora da lei”, rindo.

Começou a me contar um pouco da sua história. Veio da Itália para o Brasil, Manaus. Lembra-se que quando chegou, há 26 anos, no caminho do aeroporto para o colégio onde ficaria observou várias casas de madeira em situação muito precária e perguntou para quem o acompanha o que eram todos aqueles galinheiros construídos ali tão na beira do asfalto. “Não são galinheiros, são casas”. Ficou impressionada com a situação precária na qual essas pessoas viviam.

Chegou em outubro e em dezembro foi mandada para uma cidade do inteior que não tinha luz elétrica nem telefone. Pensou que ficaria doida naquele lugar. “Como as pessoas ficam aqui sem nenhum barulho, sem ouvir uma música, na maior escuridão à noite?”. A família na Itália ficou super preocupada com o sumiço da filha e o pai lhe disse assim que conseguiu se comunicar com ela: “Como que em um país tão rico pode ter lugar sem luz e telefone?”

“Pai, esse país é muito grande, não é como a Itália”.

E quando o pai e dois primos vieram visitá-la, pouco antes ela estava com uma ameba e isso fez com que emagrecesse mas de 20 quilos. No aeroporto o pai e os primos procuravam por ela. O pai “Meninos, eu tô vendo ali uma moça e ela tem os olhos da prima de você, mas o resto não é ela não”.

Magrinha recebeu a família e foi questionada pelo pai sobre estar ali. “O que lhe faltava na Itália, minha filha?” “Nada me faltava, pai, é que eu queria viver essa experiência da pobreza”.

6 comentários em “Especial São Gabriel da Cachoeira: Casa das Freiras

  1. Ola, eu gostaria muito de ser freira, não sei como eu faço.
    gostaria muito que vocês me ajuda-se desde de ja eu agradeço!

    • Michele, olá! Acho que o melhor caminho é ir na igreja e perguntar para um padre ou algum assistente dele. Eles vão gostar muito de saber que você quer ser freira! =))

  2. Que linda história!!! Muito Emocionante!!!
    Tem gente que nasce para ajudar, né?! Essa irmã é realmente iluminada!!!
    Bjs e estou adorando essa viagem…

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