O que é único em Manaus: “O fiel escudeiro Romário”

Não sei se aqui costumam chamar de caseiro aquele homem encarregado de cuidar da casa quando os donos não estão por perto, mas em Minas é assim. Toda casa que fica mais sozinha do que deve tem um caseiro “de confiança”, como dizem. O caseiro é uma espécie de vigia que protege a casa, ou a propriedade, de quem quer e o que quer que seja. Choveu muito e o telhado caiu? Passou alguém suspeito e ficou bisbilhotando a casa? Um motorista barbeiro acertou o muro em cheio? O caseiro comunica ao dono imediatamente e tudo fica resolvido. Em troca, o caseiro recebe moradia (fica sempre em uma casa anexa à casa do patrão) e salário.

Pois aqui no Amazonas conheci um caseiro que é o verdadeiro faz tudo da fazenda de um amigo. Romário é seu nome. O sítio fica em Rio Preto da Eva (e já contei de uma de nossas idas lá aqui). Romário tem família: esposa e cinco filhos – em em cinco ficará pois “agora encerrou o expediente”, diz. 34 anos e vindo do Pará, Romário é um desses batalhadores que arriscaram a vida e que encontraram um lugar ao sol. Um lugar discreto ao sol, devo destacar, mas um bom lugar mesmo assim.

No sítio Romário vive em meio a uma bela natureza, tem casinha confortável, frutas à sua disposição, locomoção fácil, já que tem acesso à lancha do patrão quando precisar.

Romário mantém o sítio impecável. E a verdade é que não é apenas um caseiro desses que fazem o básico. Romário é o verdadeiro faz tudo.  Trata da criação (carneiros e bezerros), cuida das plantas, faz a manutenção da casa, inclusive com trabalhos de pedreiro, mantém a terra adubada e boa para o plantio. E de quinze em quinze dias lá está Romário a postos para receber o patrão. Aí sim é hora de trabalhar pra valer.


O patrão não chega só. Chegam ele, a esposa, o amigo de gole, a esposa do amigo de gole, os 5 parentes do casal amigo que resolveram conhecer o sítio, vizinhos recém chegados no Amazonas (opa! essa sou eu e companhia), e mais um tanto de cunhado e concunhado do patrão que “faz tempo que não iam lá”. “Sítio é assim mesmo, sempre movimentado”, é o que diz Romário diante das tantas pessoas que chegaram para passar o feriado.

Quando a turma chega, é Romário quem vai até o porto guiando a lancha e busca a patota (alguém ainda usa essa palavra sem ser minha avó?). “Será que cabe mais o pessoal do Tancredo? Já tão chegando!”. Grita a patroa. “Cabe, cabe”.

Nessa altura a lancha já está lotada e nem é possível imaginar onde o “pessoal do Tancredo” vai sentar. Romário já colocou na lancha toda a bagagem das 10,15, pessoas e todo o estoque de comida que trouxeram para passar o feriado. Carregar peso é com ele mesmo. Chega o pessoal do Tancredo, lancha lotada e a sensação clássica “balança mais não cai”. Lá vamos nós. Depois dos 10 minutos de trecho de muita falação, Romário estaciona a lancha e ainda desce primeiro para dar a mão de um por um que sai da lancha. Ô paciência!

Depois descarrega a lancha, acende o fogo para o churrasco, parte a lenha que está mal partida, carrega as bagagens das pessoas que de tão afoitas nem perceberam que tudo ficou lá onde não devia, traz banquinhos para todos se sentarem, conversa, sorri, enche o freezer com as cervejas que acabaram de chegar, traz as cervejas geladas para o esopor que está perto dos amigos de bebedeira e dá-lhe Romário.

Ele transita de um lado para o outro sem ser percebido. Às vezes, quando alguém percebe falta de algo, percebe a falta do Romário e logo chama seu nome “Romário, traz a cerveja”. E vem o Romário sorrindo já abrindo a cerveja e enchendo o copo. Tarde da noite, os amigos do copo ainda estão bebendo. E Romário, que durante o dia talvez até tome um copo ou outro e que muito provavelmente está pregado de cansaço, não vai dormir até que o último bêbado esteja em seu leito a descansar, são e salvo. Sim,  Romário não vai pra cama até que todos se deitem. Já virou a noite esperando as histórias bem contadas e as declarações de amizade verdadeira feitas ao som da música brega e das goladas da gelada se encerrassem. Cuida de um a um principalmente no percurso que liga a cozinha até a casa – trecho derradeiro e cheio de obstáculos para quem está tonto. Tantas quedas já foram evitadas por Romário! Tantos banhos de água fria já foram dados por ele mesmo, Romário! Tantas mulheres já foram para cama um pouco menos angustiadas porque seus maridos que quiseram continuar bebendo ficaram com Romário, o fiel escudeiro.

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