O que acontece em Manaus: “Filhas e filhos da puta”

É de praxe: quando paro no sinal do cruzamento da rua Pará com a Constantino Nery lá vêm os meninos com seus rodinhos e detergente para lavar o vidro do carro. E também é de praxe eu balançar meu indicador duas ou três vezes dizendo que não quero que lavem o vidro. Nem se o vidro estiver muito sujo quero que lavem, porque o único modo que encontrei até hoje para protestar contra as crianças que estão soltas à serviço de seus pais a pedirem esmola é não dando esmola. Tal qual os que recolhem moedas e entregam a esses garotos, de mãos atadas, durmo em paz com meu travesseiro.


Acontece que a estratégia dos meninos mudou. Agora eles não se incomodam com o dedo indicando “não!” 5, 10, 15 vezes. Nem com o fato de eu estar batendo no meu próprio vidro para reafirmar ainda mais fortemente o “pare com isso”. Lavam o vidro mesmo assim. E eu fico lá durante aquele um minuto sem fim incomodada com o fato de eles estarem ali prestando um serviço sem o meu consentimento para ganharem um trocado e eu determinada a não remunerá-los.

Dia desses, de tão incomodada que fiquei, abaixei o vidro e perguntei para o garoto “Ei, por que você lava o vidro mesmo eu dizendo que não é pra lavar?”. Ele me olhou com um ódio profundo, muito profundo, bateu o rodinho com toda força no vidro e soltou um legível “filha da puta”. A raiva daquele menino era contra mim e contra todo o resto. Raiva do sistema, raiva da vida maldita que ele leva. O “filha da puta”, enfim, não tinha endereço certo. Era um “filha da puta” para todos aqueles que passam dentro de seus carros confortáveis no ar condicionado, têm o que comer, beber, se entreter e não conseguem sequer dar um trocado para quem vive na miséria e não têm para onde correr.


Como diz o Josias de Souza em “A vingança da miséria”, ainda em 94, “Súbito, a miséria cansou de esmolar. Ela agora não pede; exige. Ela já não suplica; toma”. Seremos vítimas não só de meninos que querem lavar nossos vidros na força, mas de outros golpes da miséria contra nós. É a tentativa da miséria de deixar de ser vítima. Continuaremos dormindo em paz em nossos travesseiros?

4 comentários em “O que acontece em Manaus: “Filhas e filhos da puta”

  1. Paula, o pior é quando as pessoas acham isso normal. Quando acham normal alguém estar no sinal (porque sempre esteve), acham normal nao ter o que comer (porque eles nunca tiveram). A miséria nos assombra, mas também nos deixa de mãos atadas, a mercê de políticas públicas frágeis e discontínuas, de bolsa família que é mais esmola que auxílio.
    Precisamos de políticas públicas efetivas, que realmente tragam emancipação e estabilidade para essas famílias mas, se formos pensar bem, o Estado realmente quer que isso aconteça, ou quer manter uma massa pobre, pouco informada, que aceita esmolas?
    Esse é o nosso sistema…

    • Lívia, você foi um amor em todos os seus comentários. Obrigada pelo carinho, pelas visitas e por todas as contribuições que deu ao blog. Espero vê-la por aqui mais e mais vezes, sempre trocando informações. Grande abraço.

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