O que acontece em Manaus: “Luciano Huck no Amazonas: benfeitorias?”

“A cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo. Homens de culturas diferentes usam lentes diversas e, portanto, têm visões desencontradas das coisas”.  Roque Laraia.

Há alguns sábados tive a sorte de assistir à reprise de um programa do Luciano Huck exibido originalmente em 25 de dezembro para comemoração do Natal: uma visita à comunidade São Tomé no interior do Amazonas. Os tradicionais quadros “Lata Velha”, reforma de um carro caindo aos pedaços; “Lar doce Lar”, reforma e mobília de uma casa; e “Agora ou Nunca”, desafio a ser superado valendo algum prêmio em dinheiro; foram todos destinados à comunidade São Tomé.

Revestida em forma de oportunidade única e de inestimável valor oferecida pelo programa Caldeirão do Huck, seus patrocinadores e, claro, a Rede Globo, a ação gerou comoção nacional. Fiquei impressionada com o resultado: forçação de barra e desrespeito à cultura local.

Seu Joaquim era o personagem do quadro “Lar doce Lar”. Numa primeira conversa com o Luciano, a pergunta: “Qual é seu sonho aqui para sua comunidade, seu Joaquim?”. Ele, tímido e recatado como muitos senhorzinhos caboclos do interior: “Queria que aqui fosse como Veneza”. Nesse momento, o apresentador faz um viés sem mais nem menos e concluí que o pobre do seu Joaquim queria conhecer Veneza. Providenciam a viagem e nem muitas imagens foram feitas porque acredito que tenha sido uma decepção tanto para o caboclo que passou toda sua vida no coração da Amazônia como para a produção, que esperava reações mais globais para os impactos que ele sofria naquela cidade. No fim do programa ele ganha uma casa só para ele no estilo das outras que há na comunidade. Dessa forma não seria mais preciso “sacrificar-se” dormindo cada noite na casa de uma pessoa da comunidade.

Como desafio para ganharem o “Agora ou Nunca” a comunidade teve que aprender a canção de John Lennon, Imagine. Fico pensado no quão distante da realidade deles essa canção está. Eles, que nunca falaram e talvez ouviram inglês na vida, tiveram treinos de pronúncia e canto até o grande dia da apresentação: Teatro Amazonas, lindo e maravilhoso, repleto de alunos de escola pública todos uniformizados. A comunidade foi até o palco e fantasiada com umas túnicas de manga comprida super apropriadas para o calor de 40 graus do dezembro amazonense, cantaram belamente a canção. Entrevistados sobre a emoção, um deles disse “posso nem saber o que estou cantando, mas cantei”. Nem sequer o respeito de deixá-los cientes sobre o conteúdo que estavam expressando naquelas palavras foi tomado. A comunidade serviu como chamariz e produto fácil no meio global. Fez vender para a audiência a inocência, a força, a beleza do interior do Amazonas e levou em troca R$50.000,00 do Banco Itaú (uma porcentagem ínfima do que o banco arrecada no Estado) e R$50.000 em eletrodomésticos não me lembro de qual patrocinador (e me pergunto como a comunidade vai conseguir comprar R$50.000.00 em eletrodomésticos, já que a vida que eles levam nem demanda essa quantidade toda de aparelhos assim). Deram a “sorte” de ganhar muitos prêmios e terem o “prazer” de rechear suas casas diminutas com aparelhos eletrônicos. Assim poderão deixar de ouvir os sons dos pássaros e das águas para assistir ao Jornal Nacional às 18h.

Ganharam barca para aumentar o lucro com a pesca e a reforma de uma pousada para atrair os turistas.  A curiosidade não está nos lances em si, pois o apresentador nada mais fazia do que exercer seu papel de encantador de público, a curiosidade maior está na reação homogênea do público: tias, pai, mãe, colegas comentaram comigo sobre o quanto ficaram emocionados com o programa e o quanto foi linda toda a dedicação e carinho dados àquela comunidade pelo Caldeirão do Huck. Sim, como fica debilitada nossa visão de mundo, como fica cega nossa percepção do outro quando tudo o que conseguimos fazer é analisá-lo com base na nossa cultura e nos nossos valores. Em programas como esse, O Outro, com sua vida que em nada se parece com a nossa, tem a sorte de ser premiado com ótimos elementos que para nós são perfeitos, mas que para ele não fazem o menor sentido, não têm qualquer representação.  Repito o que já bem dizia Laraia: se tivermos que modificar as outras culturas, criticando seus pontos fortes e fracos, construiremos uma outra cultura igualzinha à nossa. Ah, nosso próprio umbigo… Ah, nossas lentes…

16 comentários em “O que acontece em Manaus: “Luciano Huck no Amazonas: benfeitorias?”

  1. Oi Paula, o que o senhor Joaquim quis dizer com “Queria que aqui fosse como Veneza”??
    Quando assisti a matéria, gostei muito; mas lendo seu post, fiquei em dúvida, e como não conheço a cultura da comunidade, estou sem entender nada!!

    Obrigada!
    Bjs.

    Ps.: já deixei outro comentário aqui no seu blog… sou de Franca/SP e estou morando em Manaus, faz uma mês.

    • Rita, eu me recordo da sua última participação aqui no blog. Como está? Nesse momento de interação entre o Luciano Huck e o sr. Joaquim algo de mágico e inesquecível pretendia ser oferecido àquele homenzinho. Não bastava toda a sabedoria que ele demonstrava ao conversar com o Luciano, a Globo queria mais, queria o super. Quando o sr. Joaquim disse que seu sonho era ver sua comunidade como Veneza, 1º ele não pensava em nada individualmente; 2º ele tinha Veneza como referência de uma cidade que aproveitou bem seus rios para criar a beleza do próprio ambiente urbano – mas não que ele estava desejando que a comunidade se transformasse em um ambiente urbano, mas sim que os rios ganhassem mais espaço entre a própria comunidade. O apresentador então cria um modo falso de realizar o sonho daquele homem – definitivamente ir para a Europa não era o sonho dele, muito menos que fosse sozinho. Essas comunidades tradicionais têm um estilo de vida muito voltado para a vivência em grupo, compartilham o pouco que têm de forma muito espontânea porque isso faz parte da cultura deles. Passa por aí a agressão.

  2. Olá, Paula. Como vai?
    Há muito pretendia deixar um recado aqui, ams sabe como é…eu fui lendo…me entretendo…e acabei deixando passar.
    Gostaria de deixar registrado aqui o quão gostoso é ler e descobrir junto com você os pontos fortes e fracos do estado do Amazonas. Gosto muito da sua sinceridade, do seu olhar crítico. Além de ter, notoriamente, textos divertidos e muitissimo bem escritos. Sou manauara, mas moro em Vitória já faz muito tempo. Mudei-me para cá aos 9 anos e ao pisar na minha terra após 15 anos, questionei-me a respeito da minha própria cidade natal. Foi quando me deparei com o seu blog e todas as lembranças da infância vieram à cabeça: as comidas, os locais, as frutas, o calora, a chuva, as balsas, as canoas. Obrigada por ter me ajudado a relembrar tudo isso, e especialmente, tor me mostrado quão importante era voltar á minha terra.
    Felicidades!

    • Amanda, é muito emocionado o seu relato. Fico feliz por saber que as leituras proporcionaram um reencontro com sua terra. Venha sempre para contribuir com suas lembranças, encantos e desencantos sobre a inesquecível Manaus. Grande abraço.

  3. Bom dia!
    Realmente! Eu não tinha pensado por esse lado; sempre esteve claro que a vontade dele não era conhecer Veneza! O moradores querem boas condições de vida para toda a comunidade!

    Bom, estou me adaptando.. sinto saudades, às vezes me sinto um pouco sozinha; mas a mudança ainda é muito recente, creio que tudo vá melhorando com o passar do tempo!

    Vamos nos comunicar por e-mail, msn.. (ritac_correa@hotmail.com)

    Abraços!

  4. Paula, sua crítica ficou muito boa. Acredito realmente que suas opiniões estão bem fundadas e seguindo uma boa lógica. Mas já pensou que a forma de ingresso neste quadro é por cartas, pedidos de pessoas que conhecem os sorteados e suas “necessidades” e estimas? Acho que a deturpação da necessidade, ou da realidade, vai mais além do que o próprio programa do Luciano Huck e da Globo, está na sociedade.
    Fica a pergunta, quem será que mandou essa carta?? =D
    Beijos.

    • Rá! Eu sei quem mandou a carta! Foi um visitante que esteve na comunidade. Bom, isso foi o que disse a produção. Mas você acha mesmo que uma carta foi mandada pra lá para contar sobre essa comunidade? Aposto alto que o Luciano planejou muito bem essa ida para a comunidade para o programa de natal dele. A escolha foi muito intencional e ele sabia que tudo o que faria ali surtiria um efeito/comoção imensos. Ideiais para o natal, não e? Papai Noel e espírito natalino combinam muito bem com um apresentador que cuida bem das comunidades do Amazonas. Se houve ou não houve carta, a situação continua a mesma: deturpação da cultura local e uso da imagem da comunidade em benefício próprio.

  5. Paula,

    Que alegria ao ver que alguém ajustou a sua lente de forma a perceber o imperceptível, pois que oculto pelo excesso de luz da bondade compassiva da tevê. Falamos sobre o mesmo programa, dias depois, aqui http://miud.in/FCg, e concordamos contigo em gênero, número e grau.

    Abraços!

  6. Paula, engraçado, eu fui uma das pessoas que chorei de emoção ao ver o programa. Sabe porquê? Assim como eu, várias pessoas devem ter visto apenas com os olhos do coração, simples assim. O Luciano foi infeliz no seu ato, e se queria apenas fazer um programa de Natal emocionante, perdeu a oportunidade de ver aquelas pessoas com os olhos que você viu. Se ele ler o seu comentário vai ficar envergonhadíssimo.
    Mas o mais bacana disso tudo, é ver uma mineira de Barbacena defendendo com tanta garra os moradores de Manaus, isso é muito grande e muito mais importante do que jamais eu imaginaria.
    Abraços e beijos. mamãe

    • Mãe, não é defender com garra, é entender que a cultura das comunidades tradicionais do Amazonas é diferente da nossa. O Luciano não ficaria envergonhadíssimo se lesse meu texto porque ele evidentemente percebeu que estava diante de um povo de cultura diferente da dele, mas o programa gira em torno de patrocínios e audiência e para trabalhar com esses dois nortes ele tinha que fazer o que fez. Obviamente tudo muito bem pensado e planejado para gerar exatamente a reação que gerou: emoção. São os ditos da TV, afinal. Sorte a dele ter público para se emocionar, é o que faz alcançar seus objetivos principais: audiência e mais patrocinadores.

  7. Gente…. só lembrando que a comunidade de São Tomé não fica em Manaus… fica em uma zona rural do outro lado do rio, longe da cidade de Manaus.
    E sinceramente, só acho que isso não ficou feio para o Luciano Huck, mais sim para o governo do estado do Amazonas que é o 4º maior PIB do Brasil e ainda sim, existem pessoas que não vivem nem com o minino de saneamento básico e dignidade. Isso é o resultado de uma falta de Politicas Públicas sérias e eficiente.
    Sou do Amazonas e já viajei diversas vezes pelo o interior do Amazonas e a realidade dessas pessoas é de muito sofrimento justamente porque não tem muito acesso a comunicação, a saúde, energia elétrica, água potável, educação, crianças que caminham para a escola a pé 80 km. Ou seja, isso não é uma questão de destruir a cultura tradicional local.
    Não acho que a intenção do programa era acabar com a cultura tradicional daquela comunidade, pq sinceramente ninguém merece ou é obrigado a viver em condições desumanas ….penso que o fato do programa oferecer outras oportunidades aquela comunidade, não interfere na cultura deles. Só acho que o programa deu um tapa na cara do governo do estado que justifica a falta de infraestrutura nessas pequenas comunidades e cidades do interior, “devido as questões física e geográficas”. Isso é uma questão de falta de vontade politica!
    Saibam que ninguém no interior da Amazônia vive nessas condições porque quer…. e sim por falta de opção, por esquecimento do governo e de pessoas que não conhecem e nem procuram conhecer de perto a realidade local de quem vive na Amazônia.
    Quem não conhece o AMAZONAS é bom conhecer… porque através de revista, internet, ou programa de TV é outra coisa….

  8. Pois…. nem me fala dessa ponte… E a Copa? rsrs Nem quero pensar no dinheiro que está sendo gasto nesse empreendimento. Bjs a todos!!

  9. OLA, me chamo AMILTON, sou mineiro mas resido em Manaus a 29 anos. estive nessa cominidade visitando agora dia 01.01.15, e fiquei imprecionado com essa comunidade. as benfeitorias q o programa fez ja estao em ruinas, muito triste, o proprio povo local nao zela pelo q recebeu. O Sr. Joaquim nao estava aguentando em suas proprias pernas de tao bebado que estava, nao sei ate que ponto os beneficios q a comunidade recebeu foi de bom grado, pois eles proprios nao deram continuidade. Me disse um morador local que o maior beneficio que obtiveram atraves do programa televisivo foi a chegada da luz eletrica a aquele local, o que antes era movido a gerador de luz o que ocasionava um grande esforco coletivo para aquisicao de oleo diesel

    • Amilton, esses prêmios que a comunidade recebeu são uma desconexão da própria realidade local. A Comunidade não legitimou os prêmios porque simplesmente não havia necessidade daquilo. Paredes pintadas? Uma casa para cada um? Geladeira? Pousada? Programas de televisão estilo Luciano Huck trazem visões enlatadas e querem “enfiar goela abaixo” nas culturas locais e podemos mesmo é dar graças por não conseguir. Prefiro uma comunidade autêntica que nega imposições da cultura hegemônica. Fiquei encantada com seu retorno, porque pude enxergar o que eu imaginei na época: Luciano Huck e seu show global não estavam mesmo provendo mudanças de base para aquele povo amazônico.

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