Monte Roraima: Os indígenas de Makunaima

Há, entre os indígenas, tão ligados à espiritualidade, a cultura corrente de que o Monte Roraima pertence ao deus Makunaima e é uma montanha encantada, a mãe de todas as águas, boa e pura por toda sua natureza. Ao pé da montanha algumas comunidades indígenas se estabelecem. São os indígenas quem  carregam nossas bagagens, preparam parte das nossas refeições, nos guiam em alguns trechos e permitem que habitemos, por alguns dias, aquele paraíso místico.

Ao adentrar o reino de Makunaima, o pedido dos indígenas é de respeito e ordem, contemplação e silêncio.

De corpos magros e pequenos, os indígenas chamam a atenção pela força e pela velocidade com que caminham. Percorrem os difíceis trechos ao redor do Gigante Roraima como um piscar de olhos. Até mesmo nos momentos de mais risco, como a descida, onde há muitas pedras soltas e degraus muito elevados, eles percorrem com rapidez e destreza. Uma rapidez natural de quem tem força, não de quem tem pressa. Atravessam os rios de olhos fechados e ainda voltam duas, três, quantas vezes forem necessárias para nos dar a mão e nos auxiliar. A sabedoria e simplicidade desse povo nos transforma.

Mestres da calma, o tempo não corre como o nosso. “Em quanto tempo chegamos lá, Teodoro?”, perguntávamos ao indígena. Pausa, silêncio e “Meia hora”. E dá-lhe caminho, dá-lhe subida, dá-lhe pedra e nada. Duas horas depois (ou um pouco mais!) estávamos lá.  A pressa não existe e a vida tem outro valor. Cheguei no hotel onde ficaríamos – uma gruta na qual são armadas as barracas, ajeitada a cozinha e estabelecido o banheiro -, e fui logo perguntando: “Teodoro, onde eu posso tomar banho?”. Ele, que estava muito ocupado com as coisas da cozinha largou tudo imediatamente, sem nem olhar para trás, e percorreu um caminho tortuoso aos meus olhos e até longo para me levar ao pequeno lago onde poderíamos tomar banho. Agradeci envergonha por tê-lo feito interromper seu trabalho, mas ele não percebeu o que estava interrompendo, percebeu que estava me ajudando. E eu percebi que tenho que agir mais assim com os outros.

Esses indígenas levam vidas muito simples, habitam um espaço muito desprovido de bens e sua renda é muito limitada – geralmente se mantêm com o dinheiro do turismo. Carregam nossas malas pesadas com o sorriso no rosto, o que emociona demais. Ao ir embora tive vontade de carregar meu carregador no colo, o Marcelo, doce, carinhoso, tímido, forte. Eu dizia: “Marcelo, você é o meu herói!”. Ele dizia “sim”, sorria e eu sentia que ele estava entendendo apenas minha cara. E isso era suficiente.

Sempre que chegávamos aos acampamentos e mesmo quando nossa viagem terminou, o Marcelo vinha e parava bem pertinho de mim como se quisesse um abraço; nesses momento eu me sentia grande perto dele e passava o braço no seu ombro a acolhê-lo com minha força… então ele me entregava a mochila tão enorme e pesada, sorrindo, e eu me sentia fraca e pequena.

Um comentário em “Monte Roraima: Os indígenas de Makunaima

  1. Morei por dois anos em São Gabriel da Cachoeira – AM, e entendo bem esse sentimento sobre os índigenas. Muitos amigos meus acham que eles são interesseiros, eu sai de lá com o coração na mão de tanta saudade. São pessoas simples que mesmo com tanta restrição de algum tipo de conforto, estão sempre te ajudando e sorrindo para você. Se você parar e pensar eles são mais felizes que nós, eles entendem bem o valor das coisas melhor que nós. Tive momentos em que também me sentia muito pequena perante eles. Espero poder ter outra oportunidade de voltar neste lugar maravilhoso. Um abraço.

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