Viagem: BR174: da série “quem te viu, quem te vê”.

Meus leitores assíduos, companheiros silenciosos do dia a dia, cá estou eu agora em status de “sobrevivente” a capotamento.

A coisa linda da BR que eu mais amo nessa vida, a que me leva de Manaus até Boa Vista (e com uma leve esticadinha leva até ao Monte Roraima, aquele gigante encantado) está de cara nova. Principalmente para aqueles que como eu conheceram a BR há exato um ano, em total estado de calamidade. Meu post de um ano atrás foi histórico em meu blog, recebeu muitos comentários e muitas visitas nesse um ano de vida, e aqui está ele para contextualizar quem não viu: aqui está!

O cenário que encontrávamos há um ano era caótico. Depois da reserva indígina, sentido Manaus-Boa Vista, ou seja, cerca de 350km de distância de Manaus o restante do percurso de 300km até Caracaraí, que está a uma hora de Boa Vista, era só buraco. Não estou exagerando, era tanto buraco que não havia mão e contramão. Cada carro passava por onde dava e todos eram muito solidários com os que ficavam com seus pneus furados pelo caminho. Veja aqui. 

Mas um ano passou, o investimento foi feito e o governo ganhou dessa vez o prêmio de bom asfaltador de rodovias. E a Clara comentou “não é que melhoraram o asfalto, é que colocaram asfalto!”. Muito bem, o asfalto está um brinco, “filé do boi”, como diz minha filha. Um tapete de BR. Lindíssima como sempre, essa BR é encantadora. O trecho da reserva continua com tantas aves quanto no ano passado e pude ser saudada com o voar de araras vermelhas dessa vez. Muito, muito emocionante. O nascer do sol é sem igual pelas terras de cerrado de Roraima, envolvente, lindíssimo. E nenhuma fotografia consegue expressar a atmosfera em que entramos quando percorremos aquela BR. Há uma mudança de cenário muito rica. Saímos de Manaus imersos numa floresta, com árvores nos cercando dos dois lados, e vamos cortando a floresta como se estivéssemos em uma grande trilha até que o quadro vai se modificando quando chegamos em Roraima e tornando-se um cerrado cheio de buritis fortes e viçosos. Entre um e outro ponto há fontes de água, verdadeiros espelhos às vezes azulados como os da entrada da reserva indígena e às vezes esverdeados misturando-se com as árvores. A água deixa tudo quieto e silencioso, é uma contemplação.

Ainda há alguns trechos em obras, mas são muito curtos, nem 10km em sequência. Há trechos que ainda estão sem asfalto e outros ainda estão esburacados, mas é muito mínimo. Tudo está bem melhor e, acreditem, até o monumento do centro do mundo, aquele da linha do equador que como diz a Clara “mais parece o fim do mundo” está reformado, sem tantas pichações. Fiquei até desconfiada que tinha trocado a pedra do marco de tão mais limpa que ela está.

Lindíssima, a estrada me acolhe muito bem. Ano passado percorremos eu e minha companheira de bordo o trecho em cerca de 11 horas sem parar para almoçar, somente nos alegrando com guloseimas cuidadosamente escolhidas para a viagem. E esse ano chegamos em 8 horas ao nosso destino. Sãs e salvas na ida, ainda esticamos até Santa Elena do Uairén no dia seguinte e lá esticamos mais um pouquinho para ver com esses olhos que deus nos deu o incrível monte encantado. Sãs e salvas na volta, quase chegamos em Manaus também com nosso carro inteiro, mas asfalto perfeito não significa “estrada mais segura”. Depois de percorrer 790km, 300km num dia e 490km em outro, eis que passo por cima de um toco, saio desgovernada pelo acostamento e meu carro capota com todas as nossas bagunças, com Clara dormindo no banco de trás e eu com os olhos assustados no banco da frente pedindo pra ficar viva. Incrível como segundos assim são vividos em câmera lenta.

As mesmas pessoas gentis do último ano percorriam a estrada no sábado e fomos ajudadas imediatamente. Depois de checarmos que estávamos bem “clara, você está bem?”, “mamãe, você está bem?” por umas três ou quatro vezes, sai do carro pelo espaço do vidro da frente que se soltou inteiro e já tinha três carros parados no acostamento. Duas caminhonetes e um palio prata. Desceram, ajudaram a Clara a sair do carro também pelo vidro da frente e começaram a recolher nossas coisas que se espalharam todas pelo gramado do acostamento – que por sorte era muito fofo e provavelmente amenizou o impacto do capotamento. Rebocaram nosso carro para  a frente de uma fazenda pra evitar que os que passam roubassem tantas coisas do carro e seguimos viagem.

Fomos de carona até Figueiredo e lá cuidaram de nos levar ao hospital e também à delegacia. Anjos lindos. Depois nos colocaram em um táxi lotação, serviço muito útil que custa R$25 reais por pessoa e nos leva de Figueiredo até Manaus, a saída é da rodoviária. E lá estávamos nós no banco de trás de um carro que não era o nosso vivendo os últimos trechos de BR174 super felizes por estarmos vivas. Pra quem vai pegar a estrada a recomendação não é “devagar, buracos na pista”, é “durmam bem para que nenhum toco apareça desavisado pelo seu caminho”. Valeu.

7 comentários em “Viagem: BR174: da série “quem te viu, quem te vê”.

      • Eu sei. Até Boa Vista foi a noite, mas depois foi de dia. É lindo mesmo!
        Eu já fui até Bogotá desde Manaus. Só que de ônibus e solteiro!
        Ainda bem que vocês não se machucaram neste acidente!

  1. Paula querida, que susto! Eu acredito em milagres e voce? Sabe que é um ser iluminado junto do seu anjo a nossa preciosa Clara! Sempre no meu coração e nas minhas orações diárias. Cheia de proteção continua sua jornada com a determinação de quem sabe o que quer! Grande abraço com todo carinho.
    tiacomadremadrinha
    Edith

  2. olá Paula, nossa quantas aventuras, :) ah como eu tenho esse espirito aventureiro, eu gostaria de saber se é melhor ir a Santa Helena ou a guyana para fazer compras, pois estou querendo ir pela primeira vez fazer essa viagem de carro, e como é o trajeto até o monte Roraima, podia me ajudar.

    • Oi, Patrick, não sou uma super frequentadora dessas fronteiras, mas já ouvi muitas pessoas falando que santa helena tem mais variedade, outras falando que a guiana é muito mais barata! De qualquer jeito, estando em boa vista, vale a pena percorrer 1h30 no máximo até a guiana e se conseguir um dia a mais ir até a santa helena.

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