Como é viver em Manaus: “PAC da Compensa. Do caos, a limonada”

Pensa num lugar capaz de juntar gente? Pensou no PAC, acertou um dos top 10 do ranking “melhores lugares para formar fila”. Para auxiliar o povo a resolver todas as suas infinitas pendências burocráticas lá estão os Postos de Atendimento ao Cidadão espalhados pela cidade oferecendo o máximo de serviços possíveis. Detran, Polícia Civil, Secretaria da Fazenda, SEMEF, Amazonas Energia, umas outras 20 unidades de tudo quanto é órgão público e um Bradesco ao fundo pra recolher os pagamentos. Pra não ter cidadão perdido, logo que você entra já há uma placa imensa enumerando os serviços e o número do guichê em que funciona. Lá vai você em direção ao seu número, entra na sua fila ou pega sua senha. Lotado.

 

Pois nessa manhã de sexta lá vou eu prestar minha cota de participação no esquema burocrático que movimenta a engrenagem e consome nosso tempo. Fiquei feliz por ter sido a primeira a ser atendida no SEMEF, quase inacreditável. Não resolvi o problema, vou ter que voltar outro dia pra compor a fila, mas já fui atendida pra saber que vou ter que voltar. Bom?! Depois fiquei feliz por terem somente 5 senhas na minha frente para o atendimento do DETRAN, outro momento inacreditável. Sentei. “Só vou escolher sexta de manhã pra vir nesse PAC porque é muito melhor nesse horário, uma beleza, que maravilha…”, nem pude completar o pensamento de agradecimento e planejamento quando o senhor de amarelo que me atenderia no DETRAN gritou em bom tom “estamos SEM sistema, caiu geral”. Não consegui perceber se o tom era de pesar ou de alegria. Em um instante já estavam todos os outros senhores de amarelo e também os senhores de outras cores dos outros atendimentos se movimentando em torno da cadeira. Pensei que ouviria um “ooooohhh” de todas aquelas pessoas que assim como eu estavam esperando pra ser atendidas, mas nada. Ficaram lá sentadas como estavam. O menino do braço quebrado que bebia refrigerante continuou bebendo o refrigerante. Chegava mais gente, juntava mais fila, puxava mais senha e o lugar ganhava movimento. 10 minutos. 20 minutos. “Será que esses manauaras não se estressam?”.

Em menos de meia hora o lugar foi tomado por uma dinâmica própria do “SEM sistema”. Entrou o jornaleiro e vendeu jornal pra meio mundo. O senhor de amarelo do DETRAN lembrou de trocar o galão de água, coisa que faria sozinho com tranquilidade, mas juntaram outros 5 senhores pra ajudar, só porque “eu não aguento ficar sem fazer nada”. Uma interação, todo mundo se falando, dividindo as comidas, rindo das histórias uns dos outros, lamuriando a doença da prima, tia, amiga e papagaio. 30 minutos. 40 minutos. Um menos sociável se debruçava sobre o jogo de paciência na tela do computador. E quem entrava pela porta era agraciado pela notícia “tá SEM sistema”, diziam com o mesmo pesar misturado com alegria ansiosos pra ver a cara de frustado do cidadão que acabou de chegar. Entrava e logo era incorporado aos grupos. Bem acho que se o sistema voltasse ninguém perceberia porque a interação era tanta que “sistema pra quê?”. Fui embora. E quando passei pelo senhorzinho da salada de fruta lá estava ele todo feliz com a banca cheia de gente, uma baita fila, o sistema offline dele estava em pleno funcionamento.

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