Santa Isabel do Rio Negro e Comunidade do Cartucho

As vivências amazônicas me fazem repetir pra mim mesma que estou nessa terra por causa das maravilhas que ela guarda em suas entranhas de águas e florestas. As experiências amazônicas mais autênticas são aquelas em que me coloco em contato com as tradições e modos de vida das comunidades ribeirinhas, indígenas, do interior. E em Santa Isabel do Rio Negro, onde passei menos de 24 horas nesta última semana, pude entrar em contato com realidades que fogem muito do que o urbano me oferece. E esse contato desperta em mim uma essência muito rica, uma essência que não quero perder tão cedo.

Saímos num voo fretado que levou 1h45 até a sede do município. Os aviões diminutos que circulam pelo Amazonas balançam bastante e qualquer nuvem é sinônimo de instabilidade. Nessas horas melhor atender o aviso de atar cintos e esquecê-lo em seguida pensando em outras coisas.

Era meio dia e antes do aviãozinho decolar nada de ar condicionado. Éramos 12 passageiros e as caras eram de total rendição ao calor, escorria suor pela testa e pescoço de cada um. Silêncio absorto pelo calor. Voamos, enfim climatizados, e chegamos a Santa Isabel, uma típica cidade do interior, com a riqueza de ter o Rio Negro cortando suas margens. As praças e as casas de Santa Isabel são muito bem cuidadas, a maioria das casas tem pintura recente e as praças têm bastante grama e flores. Estilo “interior do Amazonas”. Ficamos pouco na cidade, nosso destino era a Comunidade do Cartucho, onde chegamos de voadeira depois de mais ou menos 1h30 de navegação pelas maravilhosas águas do Rio Negro de paisagem inegavelmente linda.

O Rio Negro não é um rio próspero, suas águas são muito ácidas e pobre em nutrientes, e por isso ele não produz muito peixe. As comunidades do seu entorno sobrevivem investindo mais na agricultura do que esperando que o rio lhes forneça algum tipo de subsistência.  O caminho de subida do Rio que fizemos nos fez avistar paisagens inesquecíveis e que talvez eu não encontre em outros rumos desse amazonas. Pude lembrar bastante de São Gabriel da Cachoeira, que estive em 2010. Estávamos, segundo o senhor que nos conduzia, atrás das cadeias de montanha que compõem a famosa “Bela Adormecida” de São Gabriel, e algumas montanhas rochosas me alegraram e fizeram sentir que eu realmente estava próxima da terrinha que um dia me abasteceu tanto.

A comunidade do Cartucho era de uma beleza à parte. Chegamos no fim do dia e o movimento predominante era de banho. O sol, tão grande e tão amarelão, já ameaçava se por sobre o rio e os indígenas se banhavam ensaboados nas margens pedregosas do rio. Algumas crianças se divertiam nadando e eu podia ver suas cabecinhas flutuantes no meio do rio, sorrisos largos. Alguns indígenas tiravam fotos nossas, os recém chegados que traziam alguns kits do governo de incentivo à extração da borracha. Sobre o programa de revitalização de extração da borracha falo num próximo post, o importante agora é que vocês imaginem como é ser recebido numa comunidade indígena sob os flashs de suas câmeras. Bom fazer o exercício de imaginar essa cena para desmistificar alguns estereótipos.

Era linda a iluminação de fim de tarde. Armamos nossas redes no barco de apoio que estava parado na comunidade, uma experiência que pra mim era inédita. “Paula, você tem que comprar uma rede”. Comprei. “Paula, você comprou as cordas?”. “Corda? Pra que é a corda?!”. “Compra e de noite você entende”. Comprei e naquele fim de tarde entendi o motivo da corda. Os barcos geralmente não têm batedouro e você precisa amarrar a rede nas estacas. Era ali que eu passaria minha noite e queria muito que meu corpo realmente colaborasse e ficasse satisfeito tal como estava meu ser mais íntimo. Fomos então para a festividade programada para a noite.

As expressões dos indígenas eram muito receptivas. Eles sorriem de volta e nos dizem “sejam bem-vindos”. Havia uma faixa grande logo na entrada da comunidade “Puranga Pesika”, que na língua baré quer dizer “Bem-vindos”. Predominantemente os índios que estavam ali eram barés, porque a comunidade é baré, mas havia outras etnias de comunidades vizinhas que estavam reunidas para participarem do evento da noite.

Para que todos pudessem se reunir eles colocaram cadeiras e alguns bancos de madeira no grande salão de chão batido coberto por palha. Fizeram a mesa, a decoração e a equipe instalou o power point. Minha impressão era que todos tinham tomado banho e colocado uma boa roupa para o evento. E como havia criança… Muitas. De todas as idades. Cabelos bem lisos, olhos curiosos quando passavam ao meu lado.

Dançaram para celebrar a noite, fizeram apresentação de grupos caracterizados com pinturas e saias de palha.

Depois do evento, reuniram-se para o jantar. A maioria come de pé mesmo com os pratos nas mãos. Tinha formiga como um dos pratos principais.  Formigas tanajuras, parecem. E acho que preparam simplesmente afogando as formigas no molho avermelhado um pouco apimentado. Olhando de longe um desavisado pode pensar que é carne moída no molho vermelho. Provei um pouco das formigas, provei do tão famoso caxiri, a bebida fermentada que tem base a macaxeira (ou mandioca), e fiquei na lateral da mesa observando. Quando percebi um indígena estava mordendo algo e eu que estava até com fome tive esperança de ser algo menos exótico que pudesse me alimentar. “O que você tá comendo?!”. “Castanha”. “Descascando com o dente??”. Surpresa pra mim, pensei que se eu tentasse fazer o mesmo meus dentes de trás não resistiriam à primeira dentada na tão conhecida casca dura da castanha do Brasil. Tentei e, acreditem, consegui descascar umas 5 ou 6, matando minha fome. Lá pelas tantas, empolgada com minha nova descoberta – sei que só foi possível porque a castanha estava bem fresca, na cidade vai ser difícil repetir o feito – percebo que o indígena que me mostrou a técnica estava com sua máquina fotográfica tirando foto da exótica moça branca da cidade que achou difícil abrir castanha no dente. Novos tempos, não? Bem que eu poderia ter sido mais sagaz e tirado foto dele tirando foto de mim.

Terminamos a noite com banho de rio. Rio Negro à noite faz jus ao nome, bem escurinho. Com um pouco de receio sobre ter arraias, entrei arrastando o pé e o indígena chegou a esboçar um riso da minha técnica para espantar os bichinhos. “Assim a única diferença é que elas vão picar a lateral do seu pé”. Nada de arraias e um banho maravilhoso, quentinho, sob o céu tão cheio de estrelas que parece possível esticar a mão e tocá-las. Céu e rio tinham a mesma cor, a diferença eram as estrelas. Vento, água, areia sob o corpo, bela noite. Relaxada sob as águas escuras e lentas do Rio Negro, preparei meu corpo para a noite na rede. Uma noite embarcada sob o Rio Negro às margens da floresta. Salve a rede, salve os doces barulhos da floresta, salve essa vida em sua essência.

4 comentários em “Santa Isabel do Rio Negro e Comunidade do Cartucho

  1. Paula, um dos meus sonhos é fazer algo assim, mas como metida que sou vou pedir pra me ensinarem a dançar também, acho lindo eles dançando. Que experiência maravilhosa, Deve ter dado um prazer enorme, daqueles que o suspiro sai profundo da alma.

  2. Experiência gastronômica bemmmm excêntrica. Formiga é proteína pura! =P Deve ser fonte de cálcio tb. hehehe

  3. Oi Paula!

    Chamo-me Luis. Achei sua experiência bem legal e única! De fato, seria um sonho poder fazê-la realidade… Há dez anos atrás, eu fiz uma viagem parescida com ribeirinhos locais durmindo nas redes deles, de jangada, e entrando na floresta do Tapajós e o Arapiuns em Pará.

    Se pudesse, agradecia-lhe muito se me fornecesse alguns dados para chegar à comunidade do cartucho ou outras comunidades de ribeirinhos que fiquem no rio negro. Acho que essa região da Amazônia de Santa Isabel do rio negro deve ser, mesmo, o paraiso…

    Tomara que dê certo e possa ir lá! Apenas preciso alguma ajuda para organizar a viagem daqui a pouco (em novembro). Se puder, escreva para mim ao meu endereço: leaozinho_69@yahoo.es

    Obrigado! Viva a floresta em pé!
    Luis

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