O que fazer em Manaus: “Saltar de Paraquedas”

Há uns quinze dias saltei de paraquedas. Digamos que nunca foi algo que ficou martelando meu ser, mas há um momento que você diz pra você mesmo “preciso mesmo viver isso. e agora.”, e lá fui eu para o aeroclube, que é um dos mais movimentados do Brasil. Quando você ainda não é um paraquedista sua opção é fazer um salto duplo. Um instrutor experiente vai fazer o salto com você e comandar o paraquedas que fica acoplado no corpo dele e não no seu. É um ato de muita confiança no instrutor, logicamente, já que sua vida fica totalmente entregue às mãos dele. Antes do salto você é instruído sobre o que vai acontecer: alguns minutos de voo até que o avião alcance 12 mil pés, a posição que você fará na hora do salto, sobre não poder de jeito nenhum e forma alguma tocar nos braços do seu instrutor pois ele precisa deles para abrir o paraquedas, e que para você pousar receberá as instruções depois que seu paraquedas abrir. Põe o macacão, prende o cabelo, espera o tempo abrir e vai para o avião.

saltar

Às vezes vivemos algumas experiências que são tão diferentes de tudo o que já vivenciamos que nossa primeira expressão é traduzi-la como “indescritível”. Desde o domingo que saltei de paraquedas é essa a expressão que vem rondando meu consciente (e inconsciente). Paro para escrever e não consigo avançar muito. Até cliquei equivocadamente em “publicar” há alguns minutos e meus assinantes receberam em seus emails uma versão inacabada do meu texto….“Indescritível”. “Indescritível”.

Para mim, uma escritora incansável, parece um pouco inadmissível uma experiência como essa querer se passar como “indescritível”.  Saltar de paraquedas não é “indescritível”, é o que consigo concluir. Saltar é incomparável. Por mais detalhada e perfeita que seja minha descrição, não farei você, meu assíduo leitor, vivenciar a experiência por completo porque falta referencial interno. Daqui, do íntimo do meu ser, eu queria que você simulasse a emoção de decolar num avião sem porta e sem poltronas em que todos estão sentados encaixadinhos uns nos outros com seus paraquedas e macacões – nesse momento você pode pensar, como eu pensei, que o mundo é mais belo quando as pessoas se aproximam uma das outras sem tanto receio, sem tantos pudores, num ato de companheirismo; queria que você simulasse a emoção de esperar pela hora que você se ajoelha e seu instrutor prende seu equipamento no dele e treina alguns movimentos preparando para o momento que você vai se levantar rumo a porta do avião e lançar-se sobre o mundo a 12 mil pés de altura, que está muito abaixo de você, incrivelmente longe – ele grita “posição”, você levanta suas pernas, joga seu quadril para frente, sua cabeça para cima e pensa “olha a situação que eu estou me colocando…. estou caindo, caindo, caindo, voando, voando, voando, eu-estou-voando!

Queria que você simulasse a emoção de chegar ao seu limite na queda livre, esvaindo-se de si mesmo lenta e intensamente – e ver que inacreditavelmente aquela terrível sensação de frio na barriga que vivemos na montanha russa não existe ali, a queda livre é outra coisa, é queda, é seu corpo inteiro a cair, encaixado no ar, na atmosfera, no mundo, você é parte. Queria que você pudesse se entregar totalmente ao vento que bate a uma velocidade imensa envolvendo todo o seu corpo, sentir-se pássaro e enfim voar; queria que você simulasse a emoção de ver seu paraquedas se abrindo, puxando você para cima, diminuindo sua velocidade e fazendo o mundo ser um só silêncio, de ver seus pés balançando sobre um mundo em miniatura que está muito abaixo de você (nesse momento, seu pé é impressionantemente grande e o mundo é tão pequeno…). Queria que você, meu leitor, simulasse a emoção de saltar de paraquedas, a emoção de ser entrega, só doação; fazer você sentir que sua emoção, seu espírito e sua alma são imensos diante de todas as coisas materiais do mundo. “Sou livre, enfim”, é o que você diria a você mesmo, bem acho…

Paula Quintão. 31/03/2013

paraquedas

 

13 comentários em “O que fazer em Manaus: “Saltar de Paraquedas”

  1. rsrsrsrsrs… que linda, que belas emoções…
    Não dá prá dizer muita coisa, porque só quem já saltou vai entender o que vc quis dizer.

    Uma frase de paraquedista:
    “Sabe por que os pássaros cantam?
    – Porque eles vivem voando”

    Isso diz tudo.
    Parabéns, Paula!

  2. Linda as palavras, as declarações de emoção que sentiu. Realmente não é algo indescritível (nunca tinha parado para pensar assim), é realmente INCOMPARÁVEL. Paula, você foi muito feliz na estrofe “mundo é mais belo quando as pessoas se aproximam uma das outras sem tanto receio, sem tantos pudores, num ato de companheirismo”. Pois, ela diz realmente o que somos, uma FAMÍLIA. Lendo sua publicação, lembrei de como foi o meu primeiro salto (também salto duplo), é realmente tudo que está escrito, só que com um pouco mais de emoção. Fico feliz em fazer parte de uma família, onde não existe cor, raça ou gênero. Pois, no ar, somos todos iguais. Abraço a todos os amantes do esporte, e convido aos curiosos, a experimentar essa emoção.

    • Querido Felipe, penso que o grande segredo da vida é mesmo guardamos memórias pra podermos acessá-las enquanto caminhamos mundo afora comparando-as com novos viveres. A memória do salto vai ser sempre incrível e sempre trará emoções maravilhosas para o momento do agora. Sinto uma emoção profunda e uma liberdade muito plena… voltarei. Seja bem-vindo ao meu blog sempre.

  3. Vim aqui no seu blog através de uma foto marcada no Facebook da SkydiveAM. Comecei lá, e senti a mesma emoção que você sentiu. No meu caso foi um pouco diferente pois fiz meu primeiro salto durante o curso AFF. Mas é isso mesmo, liberdade e depois que o paraquedas abre, silêncio.
    Hoje continuo no esporte mas ainda sou um iniciante, tenho 162 saltos, e não há um só final-de-semana que eu não pense em saltar.
    Bonito texto, gostei do blog também.

    Abraços

    • Anderson, que maravilha poder saltar de paraquedas, não é? Fiz o salto duplo e aquela atmosfera incrível não parou mais de me chamar. Estou no curso e fiz no último final de semana eu salto AFF1. Super feliz com minhas conquistas, final de semana que vem tem mais!

      • É uma maravilha mesmo! Que bom que Manaus ganhou mais uma paraquedista. Como “recém-formado” pqd, posso dar um conselho que ouvi do Cel. Leite: “Sim, é difícil às vezes e vamos pensar que não vamos conseguir, mas continue, não desista do curso!”. É bem por aí, não desiste, e tome cuidado, sempre!
        Abraços e blue skies!

  4. Pingback: Meu curso de paraquedismo, meu curso intenso de autoconhecimento | Para sempre um novo EU

  5. Pingback: Para voar sobre Manaus | Manaus pra Mim

    • Impressionante como eu gostaria que todo mundo se sentisse como você e juntasse todas as forças para saltar de um avião. É um processo muito transformador!

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