O que é único em Manaus: “Espontaneidade Manauara: Manaus de sol, Manaus de chuva”

Tão espontânea quanto o seu clima, Manaus amanhece sol, é chuva à tarde, é sol no entardecer, também as pessoas vivem conforme o vento leva, conforme a chuva molha, conforme o sol aquece. Vemos por toda parte que manauaras e não manauaras fazem da cidade um centro mor de relações espontâneas, de construções espontâneas, de ocupações e serviços espontâneos, de fazeres e quereres mais livres do que os que conheci fora daqui.

Quando digo “espontâneo” estou me referindo ao modo sem cerimônias e sem muito protocolos da população local tocar sua vida. Vários bairros da cidade surgiram de ocupações, e as ruas são em sua maioria mal planejadas como consequência desse modo de crescimento urbano. Se hoje está um bom dia para o senhor fulano arrumar o telhado da sua casa, ele vai arrumar, mesmo que pra isso ele deixe de prestar aquele serviço que combinou no dia anterior. Se os móveis estão enchendo demais a minha casa e não quero mais aquela estante, coloco na rua e alguém logo pega. Quando o motorista que levava a minha filha para o colégio resolvia que era dia de levar a mãe no médico ou o carro para o conserto, assim estava decidido e se eu me chateasse, eu que deveria dar meu jeito de melhorar o humor. Assim é nos restaurantes, nos caixas do supermercado, nas feiras, nos atendimentos em geral, pois quase todos têm pouco protocolo pra atender. É um pouco da filosofia do “qué qué, não qué tem quem qué”, como brincava um tio mineiro.

espontanea

A espontaneidade está presente quando eu vou a uma loja comprar bombons com recheio de cupuaçu e saio de lá sabendo que a atendente é mãe de três filhos e que o marido fugiu pra se casar com sua prima; a espontaneidade está na dona Zulmira boleira de primeira que me diz que o preço do bolo é R$20 e quando eu pergunto quanto é o bolo recheado ela me olha e diz “é R$20 vezes dois porque vai dar o dobro do trabalho”; a espontaneidade está no senhor empreendedor da esquina do lanche que solta a pérola “aqui em Manaus você cospe e nasce um pé de couve”, pra dizer o quão fácil foi fazer seu negócio dar certo; a espontaneidade está no atendente do correio que diante do sistema travado me pede pra deixar R$10 que seria dinheiro suficiente para as postagens e que se não desse ele completaria e depois eu pagaria pra ele. Lembro de uma reunião de trabalho quando discutíamos a melhor equipe para executar o serviço e meu chefe soltou “traz logo o Claudio, ele coloca aquelas blusas apertadas, desfila pelo corredor, e as clientes ficam logo satisfeitas”, só pude rir.

Outro dia conheci um senhor desses de cabelo branco que dá vontade de abraçar, veio há muitos anos do Rio para Manaus, talvez 30 ou mais, e por aqui ficou. “Fiquei porque no Rio eu era UM, aqui eu sou O”. E sorria dizendo que amava o Rio, mas que não trocava Manaus por nada. Achei lindo. Também sinto que em Manaus somos “O”, primeiro porque aqui há muito o que ser construído e um a mais soma bastante,  sei que essa diferença de tratamento está no modo espontâneo como as pessoas se tratam, pois sem tantos protocolos sentimos que o outro está reagindo ao que nós estamos fazendo: se sorrimos, recebemos sorrisos; se somos desagradáveis, são desagradáveis também. Ao deixar os protocolos de lado, as relações são mais o que são e ficam livres de algumas amarras.

Sinto que em Manaus dias de sol e chuva podem ser um mesmo dia. E sinto que o povo se misturou e está na cidade construindo seus espaços e suas relações constantemente. O espírito espontâneo que vagueia Manaus faz com que a essência das pessoas, seja ela boa ou ruim, transpareça com mais facilidade. E lidar com espontaneidade é muito mais fácil que lidar com emoções veladas. Por isso, celebro a espontaneidade, mesmo que ela me faça sair às pressas para levar minha filha ao colégio numa tarde cheia de serviços a cumprir.

4 comentários em “O que é único em Manaus: “Espontaneidade Manauara: Manaus de sol, Manaus de chuva”

  1. Parabéns pelo texto. Muito bem observada a realidade nua e crua de Manaus. Acompanho há algum tempo seu blog e só tenho elogios para os seus textos e sua sensibilidade.

  2. Espontanea… tai uma palavra que me define!!! #AmoMuitoTudoIsso!!!!! bjs, Paula ;)))))

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