Olhares em cliques dos pequenos de Anamã

Era noite e caminhamos até a praça para comer algo. Depois que começamos a prestar atenção nas brincadeiras daquelas crianças até esquecemos de fazer nosso pedido. Brincavam com um besouro gigante (e quando eu digo gigante, acreditem, era gigante mesmo).

“Meu pai me ensinou a pegar o besouro”, disse uma.
“E meu pai ensinou meu irmão a pegar um jacaré. Mas ainda é um jacaré pequeno”, disse a outra.
“É, mas meu pai já pega jacaré grande. E ele ficou sem um pedaço do dedo”, disse uma.

Eram irmãs, entendi logo, e o irmão era o que brincava ainda com o besouro gigante arremessando-o de um lado para outro da praça.

“E uma criança morreu no dia da enchente”, disse a menor.
“Morreu bem aqui mesmo, a mãe deixou ele cair”, disse a outra tão impressionada quanto a primeira.
“Sabia que tem uma moça que bate no filho tanto que até quebra a cabeça dele?”

Os casos não eram os melhores.
E começaram a perguntar de onde éramos, o que fazíamos, até que dia ficariamos ali e incansavelmente sobre o que faríamos na samaumeira na manhã do dia seguinte.

“Vamos escalar a samaúma”, eu explicava.
“A samaumeira!”, a menor me corrigia.

E olhavam fixamente para meu o meu rosto.

Ficaram ao nosso redor por um longo tempo, até que a fome já era muita e fomos até a mesa onde estava nosso grupo fazer nossos pedidos.

Isso já era mais de 22h e aquelas crianças nem davam sinal de que iriam para casa. Muito menos havia sinal de que a mãe apareceria para chamá-los.

“Nós temos 14 irmãos, aquele meu irmão estuda em Manaus”.

Os quatro irmãos estavam ali juntos de amostra para eu ver um pouco de sua família. Sentei nas mesas da lanchonete e nesse momento eles iniciaram uma movimentação como uma espécie de conferência. Um falava para o outro e pelas carinhas eu entendia que a qualquer momento algum deles viria falar comigo para perguntar algo. Minha impressão é que estavam morrendo de curiosidade sobre a escalada na Samaúma e talvez estivessem com super vergonha de vir pedir para participar no dia seguinte.

Rodaram em volta, rodaram, rodaram, fizeram conferência por mais alguns minutos e enquanto isso esperávamos nossos lanches chegarem.

Até que um deles tomou coragem (na verdade foi o escolhido, em conferência, a vir falar comigo) e se aproximou.

“Você gosta de goiaba?”, falou numa tacada só.
“Sim, adoro!”, respondi sem entender o porquê da goiaba
“Quer ir lá em casa buscar? Tem um pé de goiaba lá”.
“Ah…. eu não posso ir agora. Tenho que esperar aqui e depois ir dormir porque amanhã bem cedo é a hora da samaúma”.
Silêncio.

De novo a conferência recomeçou.
Sumiram.
E cinco minutos depois, como num passe de mágica, estavam os três parados ao meu lado.

“Aqui uma goiaba para você”.
E me entregou a goiaba. E eu fiz um silêncio imenso por dentro.
Sim, eles queriam me dar a goiaba em troca de qualquer parte do meu lanche. Era essa a conferência. Era esse o plano.
Fiquei em silêncio talvez por mais tempo do que eles imaginaram. Mas ficaram ali por perto, um pouco afastados, esperançando que quando meu lanche finalmente chegasse à mesa eu ofereceria um pedaço.
E assim eu fiz.

“Vocês querem comer algo comigo? Posso dividir com vocês.”
Não balançaram a cabeça, não disseram que sim. Talvez eu tenha demorado demais a convidar.
“Bem, moço, quando você vier pode trazer um outro prato e três outros talheres?”, eu pedi ao atendente do lanche.
“Quatro, meu irmã tá bem ali”, e então essa foi a resposta “sim”.

Sentaram os quatro numa mesma cadeira e comeram ao nosso redor.
Despedimos e marcamos de nos encontrar às 8h na samaúma.
“Samaumeira”, ela me corrigiu de novo.
“Isso, Samaumeira”.

E às 8h eles já estavam lá de prontidão. Não só eles, mas toda a comunidade de Anamã. Todos queriam ver o que a árvore centenária, fincada no coração da cidade, guardava de tão atrativo assim.

Nessa manhã de muitas e muitas belas histórias, algumas de tanta superação que nem caberiam aqui (por isso mesmo elas serão publicadas na Manaus pra Mim em Revista de março), as crianças que ganharam meu coração viraram os fotógrafos oficiais da expedição.

Com a minha câmera nas mãos fotografaram o que havia ao redor, fotografaram quem estava junto, fotografaram um pouco de cada coisa que aconteceu e se tornaram protagonistas dessa história.

Com vocês um ensaio de fotos tiradas por eles mesmos (que contam um pouco do que é o olhar dessas crianças tão pequenas e tão grandes de Anamã)

Carlinhos. Adriele. Weslei.  Ana Carla.

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Um comentário em “Olhares em cliques dos pequenos de Anamã

  1. Fim de semana incrivel, vivenciando a imponencia da samaúma resistindo ao crescimento do municipio ao seu redor, a sensibilidade e inocencia de crianças com uma vida tão livre. Momentos que ficaram marcados pela doce visão de Paula Quintão.
    Adorei a descrição…parabéns!

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