Há poucos dias eu recebi de um amigo a indicação de uma matéria sobre “32 vistas incríveis que você veria se fosse um pássaro” (aqui), e eu incluiria Manaus nessa lista com toda certeza. Pra mim Manaus é muito mais bonita dos céus que do solo. Isso porque os rios ganham uma dimensão imensa, se sobrepõem na paisagem e interagem com o urbano deixando tudo lindo.

Adoraria voar livre para ver todas essas imagens do alto, mas já que não sou pássaro procuro alternativas para ganhar asas e apreciar o mundo dos ares. Desde que viajei de avião ele se tornou meu meio preferido de olhar para o mundo. Sim… eu mal pude acreditar em como o mundo era maravilhoso quando visto acima das nuvens. Mas depois que fiz meu primeiro salto de paraquedas não teve jeito… o avião saiu do posto de primeiro lugar e foi ocupar o terceiro (ver o mundo do topo de uma montanha está em segundo lugar).

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O paraquedismo torna tudo ainda mais incrível pois além de ver o mundo além das nuvens, você está voando nos ares, imerso numa queda livre que dura 45 segundos mas que na sua lembrança dura uma eternidade. Sua alegria ao dominar seu voo, fazer curvas, virar cambalhota e se sentir totalmente acompanhado pelo mundo lá embaixo é mesmo incomparável.  Quando seu paraquedas abre e tudo é um só silêncio você tem tempo para olhar cada detalhe da cidade, ver o rio correndo ao lado de Manaus, ver o sol refletindo nas suas águas, ver as ruas e os carros desavisados da sua presença. Sim… o salto de paraquedas faz de você um pássaro e permite que veja a cidade com olhos que nunca viu.

Para quem não sabe, Manaus tem a segunda área de paraquedismo mais movimentada do Brasil, são mais de 250 saltos por semana, Muitos desses são saltos duplos, aqueles feitos com instrutores para que você se ocupe somente em curtir a vista e o voo de paraquedas sobre a cidade. Os turistas amam essa atividade, porque saem do Amazonas com fotos únicas. E os moradores de Manaus, quando descobrem essa possibilidade, se tornam verdadeiras crianças entusiasmadas com o novo.

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Sobre meu curso completo de paraquedismo e minha experiência de transformação e autoconhecimento, aqui está meu texto.

Sobre meu salto duplo de paraquedas, aqui está meu texto.

Fiz todas as atividades por essa escola de paraquedismo (aqui)

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Ontem vivemos uma terrível tempestade em Manaus e mais impressionante que os ventos fortes, as gotas robustas, os raios corpulentas que caiam às 11h da manhã e o caos urbano que se instaurou logo que a chuva pôs-se a desabar, foi ver como cada um tinha uma história de aventura para contar segunda à noite.

O trânsito para. As pessoas ficam aflitas com o que voa pelos ares. As árvores caem. Os muros vão ao chão. A energia desaparece. Os telhados são arremessados. Os shoppings alagam. Parece um grande filme de aventura ou de ficção científica, desses que o mundo acaba.

“Um cenário de guerra”, diz um. “Um verdadeiro inferno”, diz outro. “Uma aventura na floresta”, diz ainda outro.

É interessante observar como as pessoas reagem ao inusitado. Algumas se assustam, outras se apavoram, outras fazem um drama enorme, outras ainda querem valorizar “sua parte da história”. Mas a essência é a mesma: todos querem compartilhar o que viveram. Se foi ficar horas parado no trânsito, se foi cuidar da casa alagada, se foi estender todas as roupas numa cerca que beira a rua, se foi lidar com a falta de energia. E a cada história contada mais percebo que os olhos determinam o mundo. Cada nova história que eu ouvia, uma Manaus diferente em tempo de tempestade aparecia.

Apesar das tragédias, era uma aventura urbana percorrer as ruas e de repente encontrar uma árvore no meio da pista, um alambrado jogado no meio da maior avenida da cidade, rios de água correndo pelas ruas, fotos e mais fotos do shopping “submerso”, telhados que voaram. Nossos olhos ficam atentos, nossa mente fica super curiosa buscando mais e mais elementos para nos encher com mais um “espanto”, mais uma história para contar aos outros que não viram. Hoje a cidade já não tem tantos elementos como vimos ontem. Rapidamente vai se recuperando e voltando a aparente normalidade de sempre. Seguimos em frente os mesmos caminhos, a mesma rotina de todo dia. No mínimo a tempestade nos enche de histórias. E vida boa mesmo é essa vida de mais histórias, ainda mais numa segunda-feira.

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Desde quando a Ponte sobre o Rio Negro foi inaugurada a grande expectativa é que os municípios que foram conectados à Manaus “via asfalto” se desenvolvam. Talvez ainda não tenha ficado claro que desenvolvimento não tem nada a ver com crescimento. Desenvolver é criar melhores condições de vida, mais opções culturais, econômicas, políticas e sociais. Crescimento é encher a cidade de carros, asfalto, casas, condomínios, prédios e pessoas – o que, definitivamente, não está atrelado a melhores condições de vida.

E na expectativa de que o Amazonas poderia passar por um boom de crescimento pós-ponte (inaugurada em 2011), os olhares se voltaram para Iranduba, Manacapuru e Novo Airão, principalmente, que são as cidades que ficam “depois da ponte”. Se antes era preciso pelo menos uma hora para atravessar o rio negro e chegar à estrada que dá acesso a esses municípios, agora em 10 minutos atravessamos tranquilamente os 3,5 km de ponte e voilá! Tudo em perfeitas condições para desfrutarmos a AM-070.

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A estrada ganhou novos cafés da manhã, restaurantes e nesse momento está em obras para ser duplicada. “Que venham os carros”, é o recado que o governo está dando. Os balneários de Iranduba ganharam novos visitantes e deixaram de ser os pacatos e bucólicos recantos de natureza selvagem para se tornarem centros de grande movimentação nos finais de semana, como o balneário de Açutuba costuma ser em sábados e domingos de sol (aqui está meu outro post). Iranduba, por ser a cidade mais próxima de Manaus, que podemos chegar em  menos de 30 minutos de carro, ganhou condomínios, projeto de cidade universitária, novas barraquinhas na praça e mais visitantes no final de semana. Os grandes redes de restaurantes de Manaus, como a Alemã, já fixou, toda satisfeita, um super outdoor na estrada para avisar aos que bem trafegam na estrada que agora Iranduba tem restaurante aberto até meia noite e com “playground”. A Alemã foi para Iranduba e acreditou no desenvolvimento que está por vir na cidade.

Iranduba é a mesma Iranduba pacata de dois anos antes, mas já não tem os mesmos traços.

A entrada da cidade ainda estampa a mesma chaminé de olaria, o símbolo do município. Mas mesmo vendo que a fumaça das fábricas de tijolos e telhas ainda marca os céus da cidade, elas já estão mais embaçadas entre os novos espaços.

Se antes a avenida principal de Iranduba era uma rua de casas, agora é uma rua de casas com comércios. As garagens, até nas ruas mais distantes da área central, são cafés, restaurantes, tabernas. Se não há garagem, há uma plaquinha de “vende-se din din”. Espalham-se os serviços de oficina para motos. E apesar de ainda vermos muitas bicicletas circulando pelas ruas, há muitas motos.

Fico daqui torcendo para que os ares do desenvolvimento sejam diferentes dos ares do crescimento. Que os tijolos das olarias históricas de Iranduba, que sempre foram enviados para Manaus, agora sejam usados um pouco mais em seu próprio município para construir condições mais confortáveis de vida.

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O Manaus pra Mim nasceu da minha curiosidade e minha vontade de partilhar meus aprendizados na “cidade do sol”, essa Manaus de duas estações. Pouco antes de vir morar em terras amazônicas, eu era uma mineira com muita vontade de aprender a vida, os jeitos, a cultura, o modo de viver da Amazônia. Hoje, depois de quase 4 anos de blog, comemoramos nossas muitas visitas (são hoje mais de 80.000 visitas ao site, leitores assíduos que querem “colher” um pouco mais de Manaus e tudo o que há ao seu redor), comemoramos todos os comentários recebidos e a alegria de partilhar.

Em celebração a todos os frutos colhidos, o Manaus pra Mim ganhou cara nova (vejam!) e endereço registrado. Somos agora o “manauspramim.com.br” ou “manauspramim.com”. Você escolhe e acho lindo que você possa escolher! Inclusive continuar acessando o “manauspramim.wordpress.com” e o redirecionamento será automático.

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Outra grande novidade que vamos comemorar novamente juntos é o lançamento da Revista Manaus pra Mim, que será distribuída gratuitamente em formato digital aqui mesmo pelo blog. Ela tem lançamento previsto para o final de outubro e será um espaço a mais para os posts, as fotos e as histórias de vida da Amazônia. Ouçam o rufar dos tambores…nossa Revista já está ganhando vida.  Se você quer escrever um artigo, escreva para manauspramim@gmail.com.

Sempre acreditei que podemos aprender muito com as experiências de todos que estão ao nosso redor e por isso mesmo esse blog se constitui como uma fonte de saberes: eu colho histórias de vida pela Amazônia e cada um de vocês semeia comentários, compartilha outras experiências, envia e-mails contando novas histórias e me enchem de perguntas, que exigem que eu colha outras histórias e assim entramos em um ciclo em que somos abastecidos com muito conhecimento.

Sejam sempre muito bem-vindos. Sintam-se parte.

Manaus pra Mim.

As estradas do Amazonas têm uma peculiaridade, que talvez seja bem comum em outros muitos estados do norte do Brasil : motociclistas transitam sem capacete. Se não bastasse, ainda levam um outro alguém na garupa também sem capacete. E se tudo não parecesse incrivelmente terrível, às vezes ainda levam dois “alguéns” na garupa. Sim! Três pessoas numa moto. Pra mim é a maior curiosidade.

Como eu não sou uma andadora de motos, não sei qual o incômodo que um capacete gera, mas imagino que seja muito quente. Tão quente que nessa terra do sol mais quente ainda seja uma dessas missões insuportáveis a enfrentar. Tão insuportáveis que os motociclistas preferem encarar uma estrada ou o trânsito da cidade correndo o risco de sofrer algum acidente que nem seria tão grave se houvesse um capacete para um acidente fatal. Sendo ou não desconfortável, ele é obrigatório por aqui tanto quanto em qualquer outro lugar.

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Vez ou outra eles carregam na mão mesmo o capacete, que é pra usar caso apareça um guardinha de trânsito. Ou seja, o capacete mais vale para evitar uma multa do que para proteger a vida. E nessas idas e vindas, as crianças são doutrinadas com a mesma cultura e servem de carregadoras oficiais de capacetes quando estão na garupa.

A população adota a moto como uma evolução da bicicleta que usaram durante a infância. Não percebe que nos últimos 30 anos o trânsito é outro, as estradas são outras, e as pessoas que circulam pelo Amazonas são outras também. O Estado mudou e cresceu. A população do Amazonas, nos últimos 12 anos, cresceu em 700 mil pessoas. Todos chegam com um novos tempos, novas velocidades e imprimem outras relações no trânsito. E nessa nova realidade o motociclista está diante de um grande risco que ele mesmo não percebe. As motos com vocação par bicicleta são consequência de um crescimento acelerado, desses que você não se dá conta, desses que você não consegue compreender, desses que trazem novos modos de vida antes de trazerem novos modos de pensar.

Quando terminei de escrever meu livro “Para sempre um novo EU” eu ainda não tinha a menor noção de como poderia fazer para transformá-lo em um livro de verdade. Publicar um livro sempre me pareceu algo bem misterioso e mesmo com as todas as pesquisas no Google e com os amigos, eu não conseguia compreender plenamente o processo.

Num desses momentos de iluminação pensei que a Editora Valer, bem forte no Amazonas, pudesse me instruir ao vivo e a cores sobre como seria possível transformar minhas linhas em um livro na minha estante.

Fui até a editora e me explicaram que havia uma nova pessoa responsável pela edição dos livros e em 15 dias ela começaria a receber os manuscritos.

– Até então era o professor Tenório quem cuidava desses recebimentos, agora é uma outra professora.

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Voltei para casa com muita esperança, completamente empolgada. Depois de 15 dias exatamente, lá estava eu com minhas páginas impressas na mão dentro de um saco plástico esperando para ser atendida. Eis que o professor Tenório Telles, que até então eu não conhecia pessoalmente, entrou na sala, sentou-se ao meu lado e começou a me perguntar sobre meus escritos.

– Então você fez uma viagem ao Monte Roraima?

– Sim, fui ao Monte Roraima e foi maravilhoso, muito transformador.

Ele me olhava em silêncio e seus olhos diziam “fale um pouco mais”, esses olhares acolhedores e sem pressa que raramente vemos por aí. Posso até dizer que sua voz saia muito mais pelo olhar que pela boca. Contei alguns ensinamentos dos caminhos do Roraima.

– Eu  não estou mais cuidando pessoalmente da avaliação dos manuscritos, mas deixe seu livro comigo e daqui a uma semana venha para que eu possa te dar um retorno.

Uma semana depois eu estava mesa dele entre suas pilhas de papéis esperando para ouvir seu diagnóstico. Fui com o coração aberto para receber qualquer comentário sobre o meu livro.

– Paula…!

– Oi, Tenório…!

– Veja, minha filha, você é uma escritora completa, seu livro tem muito a ensinar às pessoas sobre como a vida pode ser mais simples, mais desapegada…

Ele falava sobre cada parte do livro, sobre cada uma das histórias que narrei e enquanto ele analisava meus escritos eu me enchia de alegria acreditando que realmente aquele era o meu caminho.

– Vamos publicar seu livro, Paula.

Sorri para ele, sorri para mim mesma. E hoje sei que uma preciosidade que o Amazonas reservou para mim foi o encontro com o Tenório. Se em nosso primeiro encontro tive a impressão de que suas palavras vinham de seus olhos muito mais que de sua boca, hoje, depois de me tornar uma leitora e amiga, sei que seus olhos irradiam o que vem de um coração cheio de amor e esperança de que o mundo pode ser melhor.

No dia 25 de julho, dia do escritor, Tenório lançou em Manaus seu novo livro “Renovação”. O SESC estava cheio naquela noite de quinta. Foi meu presente de dia do escritor para mim mesma. Dentre todos os ensinamentos que recebi na noite, minha certeza de que a vida não se faz quando nascemos ou quando morremos, e sim durante o caminho; certeza de que a viagem não se faz no ponto de partida ou de chegada, mas durante a longa jornada de um ponto a outro.

Tenório é meu anjo torto que me diz “Vai, Paula! ser gauche na vida”.

Está aí uma das curiosidades que esses olhos meus encontraram nessa terra amazônica: a deliciosa e surpreendente paçoca salgada de farinha e carne seca. Eu, uma mineira que só conhecia paçoca doce de amendoim, me flagrei aceitando “uma paçoca” de um amigo que entrou num desses restaurantes de estrada e quando ela chegou em minhas mãos, tcharans!, lá estava a comidinha totalmente diferente do que eu esperava.

Vamos provar, lógico, as novidades que a terra oferece. E que belezura!! =)) A farinha amarela de bolinhas grandes se mistura com a carne bem desfiada, bem fininha, e vira acompanhamento no almoço ou o próprio café da manhã. É uma versatilidade sem fim!

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Uma das coisas mais fortes que aprendi nesses anos de vida no Amazonas é que muitas pessoas que vêm para o norte do país, assim como eu, podem amar essa terra do sol ou detestá-la. Tive amigos e conhecidos que se abriram para as experiências proporcionadas pela distância dos grandes centros, para as dificuldades de acesso, para a espontaneidade do povo, para a desorganização urbana, para a falta de infraestrutura, para o trânsito tão espontâneo quanto seu povo, e também para as experiências em meio a natureza, de contato com o rio, de adoração do rei sol em manhãs e fins de tarde. Sei que o Amazonas proporciona mesmo experiências muito diferentes daquelas que estamos acostumados em regiões do Brasil como o sudeste, e essas experiências podem agradar ou não quem vem.


Acontece que uma coisa é certa e é sobre ela que eu gostaria de falar: descobri nesses anos que quando você se abre para o que há nesse Amazonas do sol maior, ele se abre para você e te acolhe imensamente. Traz oportunidades, traz paz, traz aprendizados.
Já escrevi em algum de meus textos e vou contar de novo. Um grande professor, Josemir, há uns dias me escreveu dizendo que assistiu na televisão a uma entrevista do Márcio de Souza em que ele dizia que há cidades que nós buscamos para nos curar. E que Manaus não é uma delas. “As pessoas vão para Manaus para contrair algo”. E é exatamente o que sinto, que estou em Manaus para contrair aprendizados, experiências, saberes, vivências, olhares, que fazem de mim um ser humano melhor do que eu era há dois, três anos com uma frequência de transformações muito intensa. O ritmo do aprendizado por aqui, talvez por estarmos tão expostos a situações diferentes do que somos acostumados e isso despertar mais nosso olhar, é incrível.

Acho linda a mudança, como bem sabem. Acho linda a transformação e o aprendizado. E nisso tudo me encanta a receptividade do Amazonas, de Manaus, do povo daqui. De braços abertos a cidade nos acolhe a agradece por estarmos aqui contribuindo. E nós agradecemos de volta tudo o que recebemos. E vamos em crescimento.

Paula Quintão. 08/06/2013

Tão espontânea quanto o seu clima, Manaus amanhece sol, é chuva à tarde, é sol no entardecer, também as pessoas vivem conforme o vento leva, conforme a chuva molha, conforme o sol aquece. Vemos por toda parte que manauaras e não manauaras fazem da cidade um centro mor de relações espontâneas, de construções espontâneas, de ocupações e serviços espontâneos, de fazeres e quereres mais livres do que os que conheci fora daqui.

Quando digo “espontâneo” estou me referindo ao modo sem cerimônias e sem muito protocolos da população local tocar sua vida. Vários bairros da cidade surgiram de ocupações, e as ruas são em sua maioria mal planejadas como consequência desse modo de crescimento urbano. Se hoje está um bom dia para o senhor fulano arrumar o telhado da sua casa, ele vai arrumar, mesmo que pra isso ele deixe de prestar aquele serviço que combinou no dia anterior. Se os móveis estão enchendo demais a minha casa e não quero mais aquela estante, coloco na rua e alguém logo pega. Quando o motorista que levava a minha filha para o colégio resolvia que era dia de levar a mãe no médico ou o carro para o conserto, assim estava decidido e se eu me chateasse, eu que deveria dar meu jeito de melhorar o humor. Assim é nos restaurantes, nos caixas do supermercado, nas feiras, nos atendimentos em geral, pois quase todos têm pouco protocolo pra atender. É um pouco da filosofia do “qué qué, não qué tem quem qué”, como brincava um tio mineiro.

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A espontaneidade está presente quando eu vou a uma loja comprar bombons com recheio de cupuaçu e saio de lá sabendo que a atendente é mãe de três filhos e que o marido fugiu pra se casar com sua prima; a espontaneidade está na dona Zulmira boleira de primeira que me diz que o preço do bolo é R$20 e quando eu pergunto quanto é o bolo recheado ela me olha e diz “é R$20 vezes dois porque vai dar o dobro do trabalho”; a espontaneidade está no senhor empreendedor da esquina do lanche que solta a pérola “aqui em Manaus você cospe e nasce um pé de couve”, pra dizer o quão fácil foi fazer seu negócio dar certo; a espontaneidade está no atendente do correio que diante do sistema travado me pede pra deixar R$10 que seria dinheiro suficiente para as postagens e que se não desse ele completaria e depois eu pagaria pra ele. Lembro de uma reunião de trabalho quando discutíamos a melhor equipe para executar o serviço e meu chefe soltou “traz logo o Claudio, ele coloca aquelas blusas apertadas, desfila pelo corredor, e as clientes ficam logo satisfeitas”, só pude rir.

Outro dia conheci um senhor desses de cabelo branco que dá vontade de abraçar, veio há muitos anos do Rio para Manaus, talvez 30 ou mais, e por aqui ficou. “Fiquei porque no Rio eu era UM, aqui eu sou O”. E sorria dizendo que amava o Rio, mas que não trocava Manaus por nada. Achei lindo. Também sinto que em Manaus somos “O”, primeiro porque aqui há muito o que ser construído e um a mais soma bastante,  sei que essa diferença de tratamento está no modo espontâneo como as pessoas se tratam, pois sem tantos protocolos sentimos que o outro está reagindo ao que nós estamos fazendo: se sorrimos, recebemos sorrisos; se somos desagradáveis, são desagradáveis também. Ao deixar os protocolos de lado, as relações são mais o que são e ficam livres de algumas amarras.

Sinto que em Manaus dias de sol e chuva podem ser um mesmo dia. E sinto que o povo se misturou e está na cidade construindo seus espaços e suas relações constantemente. O espírito espontâneo que vagueia Manaus faz com que a essência das pessoas, seja ela boa ou ruim, transpareça com mais facilidade. E lidar com espontaneidade é muito mais fácil que lidar com emoções veladas. Por isso, celebro a espontaneidade, mesmo que ela me faça sair às pressas para levar minha filha ao colégio numa tarde cheia de serviços a cumprir.

“Manaus é a terra da oportunidade”, talvez seja uma das frases mais ditas por quem vai, por quem vem e por quem mora nessa cidade do sol. Em Manaus circulam pessoas de todas as regiões do Brasil em torno das relações de trabalho, estudo e familiares. Os voos para Manaus estão sempre cheios e os rostos revelam o quanto a cidade recebe gente de todos os lugares. O Polo Industrial de Manaus é um dos chamarizes principais, conhecido nacionalmente pela grande produção e necessidade de mão de obra. Nem todos vêm para ficar, alguns só aterrizam, resolvem suas questões e retornam para suas cidades. Outros vêm para ficar. Desses, alguns amam Manaus, alguns odeiam a cidade com toda a força.

Sinto que Manaus se abre para quem se abre para ela. Oportunidades estão disponíveis em todos os níveis e classes porque o dinheiro realmente circula dentro da cidade. No Amazonas, Manaus é o centro das relações e das logísticas, concentrando um excelente mercado consumidor. Por isso mesmo a circulação de valores é muito concentrada na cidade. O flanelinha, o feirante, o dono do lanche, o microempresário, os empreendedores de uma forma geral conseguem ser bem sucedidos na cidade de um modo que talvez não seriam em outras regiões, muitas vezes prestando serviços “tão espontâneos quanto o espírito da cidade”.

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Numa dessas tabernas do centro de Manaus, bagunçadinhas e movimentadas, eu comprava uns doces quando um senhor dizia para quem quisesse ouvir. “Vida boa demais, meu filho, eu não reclamo de nada, só tenho a agradecer. Peço só saúde, porque com saúde dá para ter tudo que a gente precisa. Reclamar pra que?! Eu só reclamo de quem reclama! Aqui em Manaus não falta o que fazer, não falta trabalho. Eu mesmo vim do Acre sem um tostão e fui logo montando um lanche pra mim. Olhei bem os concorrentes, percebi o que eles não faziam e meu lanche é o maior sucesso. Tenho casa, carro, sítio, ganho bem”. Rimos dele porque logo estava “reclamando de quem reclama” de novo. O dono da taberna aproveitou o ensejo para soltar sua pérola conclusiva: “em Manaus você cospe e já nasce um pé de couve”.